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Alentejo Vivido

por Maki, em 23.02.16

Ainda não li o livro "Alentejo Prometido" do Henrique Raposo, honestamente até a breves momentos desconhecia a existência de tal pessoa até me deparei com um vídeo no facebook em que ele falava do seu livro e do Alentejo, mas ele não falava do "meu" Alentejo, falava sobre um Alentejo frio e distante com o qual nunca tive contacto.

No Alentejo há suicídios? Sim! Bastantes, um dos meus avôs suicidou-se quando eu ainda não tinha capacidade de criar memorias, um senhor que outrora teve um pequeno império de lojas também, os alentejanos consideram o suicídio algo vulgar? Não. Um suicídio é acima de tudo uma perda humana, e - pelo menos no Alentejo onde cresci - é velada como qualquer outra. Vão familiares, vão amigos, vão vizinhos, vão conhecidos, por vezes até vão desconhecidos. Sempre que alguém morre na minha terra a família que perdeu um elemento não fica sozinha. Os vizinhos batem à porta, os companheiros de copos de outrora também. Querem saber informações para terem conversa no café? Talvez. Mas pelo menos estão lá.

No Alentejo onde cresci é raro ver um velhote sozinho num banco, estão sempre dois ou três, e se estão sozinhos é porque os seus compadres não madrugaram como de costume. As velhotas (e as não assim tão velhotas) vão pedir um raminho de hortelã e saem da casa da vizinha meia hora depois com hortelã, coentros e por vezes caça que sobrou. Nos cafés e tabernas mesmo que uma pessoa se sente numa mesa sozinha acaba por conversar com a mesa do lado, da frente ou até mesmo com a mesa que fica na outra ponta, porque no Alentejo onde cresci ir tomar um cafezinho não se resume a embocar cafeína e ir a correr para o trabalho, assim como beber um copinho nunca se restringe a um copinho.

Onde cresci existe carinho, preocupação, dedicação. Os meus avós não possuem o vocabulário mais extenso do mundo, não sabem muitas palavras caras ligadas com sentimentos ou como expressa-los verbalmente, mas eles sentem, e tenho a certeza que eles me amam assim como amaram os seus filhos e eu espero um dia amar os meus. Provavelmente o meu avô nunca me disse que adorava ou sequer que gostava de mim por ter crescido numa sociedade em que um homem não deve dizer essas "mariquices", mas os passeios que ele dava comigo, as suas piadas e brincadeiras demonstravam bem o que ele sentia. Agora que penso nisso acho que mesmo os meus pais e a minha avó nunca me disseram que me amavam, mas nunca na minha vida duvidei de tal. 

Fui muito feliz no Alentejo onde tive sorte de crescer e sempre que posso tento voltar lá. Tenho pena que o senhor Henrique Raposo assim como todas as pessoas que vivem no Alentejo que ele descreve, gostava que todos eles tivessem a oportunidade de viver no mesmo Alentejo em que eu cresci, mas infelizmente esse Alentejo está a desaparecer, os velhotes cada vez ficam mais velhos e o cabr** do tempo não perdoa pelo que já não podem ir para os bancos onde costumavam apanhar Sol. A vizinha deixou de plantar coentros porque a por** da geada os queima. As tabernas estão vazias que com o dinheiro de "um" copinho se compra um pacote de vinho. Guardo comigo a dificuldade de expressar verbalmente o que sinto deixando as minhas acções falar por mim que parece ser o único que consigo preservar do Alentejo em que cresci.

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publicado às 22:49



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